ao diário polifônico, nota número um: nove horas não muito confortáveis no avião-subwoofer e, de ouvidos estufados, aterrissamos: cá chegamos um pedaço da trupe a Lisboa. sobrevividos às filas e às esperas e somos acolhidos numa casa de "malta", com gente espalhada e paredes belamente coloridas de rabiscos. gente bacana, sotaque musical, alegria familiar. breve mais rastros, possivelmente em formato multimídia. um beijo.
alô astronave polifônica, é com alegria e ainda algum não-acostumamento que anunciamos o que já não deve ser novidade a alguns: é que aprovamos um pedido de passagens no MinC e estamos de malas prontas pra dar um rolê no Velho Mundo! rumamos ao reecontro com Maopode, integrante transcontinental cujo atual paradeiro cosmicamente coincide com a cidade do festival que nos enviou a carta convite - Bologna. a primeira parada, porém, é Lisboa, terra ancestral da poesia dessa língua, onde por ora temos uma apresentação marcada no Crew Hassam no dia 11. a ser continuado… cambio breve.
Tô Ouvindo #28 - TOTO BISSAINTHE – POR QUE NÃO CONHECI ANTES?
Certa vez, fiz um trabalho com uma cantora e professora haitiana, que dizia que nos cantos tradicionais existia uma “vibração” inerente a palavra e ao som. Sem falar que, em cada intenção, estavam guardados os elementos necessários para a transformação da presença e a “justificativa” para o ato de se fazer música.
As palavras dessa professora me vieram em um momento, em que me havia sido apresentado o som, de uma das artistas mais completas ou complexas que já ouvi: Toto Bissainthe.
Tô Ouvindo #27 - Um lobo atroz perdido entre duendes no edredom.
Alguns podem considerá-lo um compositor barango de baladas de novela; outras, apaixonadas,alguém que tem o dom tocar o coração das pessoas através de seu dom romântico; são muitas outras as impressões acerca deste medalhão. Para mim, uma das mais belas vozes que já ouvi, um cancionista com dicção pra lá de convincente, mas em alguns momentos sinto no seu texto o que se pode considerar de mais nonsense na nossa MPB. Falo de Djavan, cuja música, nunca em sua totalidade, não cessa de aparecer em minhas apreciações musicais. O artista tem uma obra vasta, dotada de requintes e vai e vens, estou longe de conhecê-la integralmente. Como outros compositores consagrados, Djavan é frequentemente conhecido por uma dúzia de músicas que tocada em demasia pelos veículos de mídia de massa, principalmente através das telenovelas. Se hoje há quem defenda um gênero específico para a música de novela, estes críticos devem a sua classificação ao trabalho de Djavan. O amor, fato social total de suas composições, não cansa de ser representado em romances, em novelas, em canções. Mas não é apenas no gênero novelístico que o nosso astro assina sua patente.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento.
Vou escrever sobre um disco que conheci há pouco tempo e não paro de escutar, ouço pelo menos uma vez por dia, e quando isso não me acontece sinto saudades. ‘’Sem Nostalgia’’, de Lucas Santtana é uma viagem para um lugar envolvente com muito violão, ritmo, natureza e coisas eletrônicas misturadas em um sentimentalismo enorme.
Dando continuidade à série de convidados. Recebemos, com muita honra, nosso amigo Alexandre Fonseca - grande apreciador da música para teclado e, sobretudo, dos sintetizadores - que nos apresentará um álbum que abriu os caminhos para uma exploração menos restrita da música eletroacústica.
As coisas que realmente são não precisam se ocupar em mostrar constantemente que são, tão simplesmente estão lá. Mas em alguns casos sua existência, simples como é, traz a mais avassaladora das transformações no homem, pois ocupa um espaço anteriormente inexistente na mente preconceituosa do humano. Isso normalmente ocorre devido a um criador que, ocupando o mais improvável dos lugares e usando a técnica mais incomum, consegue alcançar a dimensão da Arte (no sentido mais conservador mesmo) e transformá-la mais ou menos radicalmente. Isso se vê, por exemplo, em Picasso, imigrante espanhol que enxergou máscaras africanas nos rostos das meretrizes de Montmartre, e também na obra sobre a qual tratarei.
para Irene, comunhão de apreço pela beleza dos cantos dos pássaros na música.
...os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach. – Manoel de Barros, Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo
Eis um Tô Ouvindo cujo tema foi trocado de última hora em função de uma paixão recente (ma non troppo) e ainda incompleta, mas que gorjeou mais alto. Desde pequeno, vi a orquestra como uma espécie de fauna: um conjunto de seres criados pelo homem, análogo à criação divina da natureza. Só agora, com esse interesse ainda vago pela ornitologia, tenho conseguido desenvolver melhor essa idéia.