Na infância ouvi muito pagode e música sertaneja. Na minha casa poucos discos. Meus pais foram daqueles que pararam de ouvir música depois da juventude e era raro alguém pôr algo pra tocar em casa. A radiola que mais balançou meu berço musical ficava no sítio do meu avô Didiu, onde na pilha torta de vinis sobre o sofá se equilibravam Roberto Carlos, Chitãozinho&Chororó, Raça Negra, Leandro e Leonardo, Só Pra Contrariar, Zezé e Luciano... Nada de mpb, nem um caetano sequer.
No fim de semana passado estivemos em Uberlândia, pra tocar no Jambolada. O festival faz parte do Circuito Fora do Eixo, uma rede de produção cultural formada por uma penca de coletivos ao redor do país, associados para realizar ações focadas no setor da música independente. Durante os três dias do festival, bandas de todo o país se apresentaram para um público de mais de 10 mil pessoas!
Foi muito bacana perceber a força e a dimensão desse movimento, que de fato aponta pra uma nova lógica de mercado e relações produtivas no campo da indústria fonográfica e da produção cultural. Sem dúvida alguma, se estamos vivendo uma transição de modelos, a nova página que virá deriva diretamente desse modelo de pensamento, de empreitadas cooperativas e da formação de um rede de cultura auto-sustentável e independente.
Para nós, do Graveola, as reverberações da viagem têm sido muito positivas: voltamos pra Belo Horizonte atritados numa série de desejos e projetos de contribuir ao máximo com o crescimento dessa cena. E como rastro lúdico de memória afetiva desse episódio, alguns dos nossos felizes encontros e elocubrações tornaram-se imagem no vídeo abaixo.
-- (e caso algum leitor mais atento tenha percebido, excepcionalmente nessa semana a tradicional coluna domingueira "Tô Ouvindo" deu o cano, por motivo de força maior. mas no domingo próximo, espera-se, voltará à ativa.)
ex-os mulheres negras, com abujamra sobrinho,,, andré, (que depois virou karnak..., que não amava toda a família) nascido em 59, bebeu na fonte do rock`n`roll, depois na da tropicália.
'Nasci de um doidão marinheiro cuja paixão é o mar, cuja morada é um barco sem rumos e toda a vista é cheia d'água.'
Não sei se desse sangue ou de outro modo, mas o nomadismo está entranhado aqui na carne. Seja nas viagens de mochila ou de cabeça, seja num livro de realismo fantástico ou a dança no meio da rua costurando a madrugada, nessas coisas todas que se misturam e formam na cabeça uma sequência linda de gente em celebração, de saia que gira e gente rodando, de caneco de vinho no alto do brinde, de tenda cigana, clarão e noite acesa, onde a ida vem com sol e estrada e a chegada, também.
Taí o registro do encerramento do Festival Outro Rock 2009, que lotou a Praça da Savassi nos dias 3 e 4 de outubro. A última música do festival foi Insensatez (a mulher que fez), levando a galera à insensatez coletiva.
Teve bão. E até o ano que vem!
imagens: bernard machado, mauricio rezende e priscila amoni | edição: luisa rabello
Pois, que tem músicas que poderiam ser mais ouvidas e reverberadas. E tem filmes que poderiam ser mais vistos e reverberados. E talvez tenha um jeito de juntar isso, 1+1. Daí a gente podia ver - e ouvir - um trecho do momento de criação de Sympathy for the Devil, na direção do Godard.
Trecho de One Plus One / Sympathy for the Devil (1968), de Jean-Luc Godard
Esse é um lado do filme. É um fragmento. Convenhamos que não estamos numa sala de cinema propriamente, mas numa coluna rápida, para ser consumida rapidamente, apesar do próprio filme e sua abordagem crítica do capitalismo e da sociedade de consumo. Porque todos os discursos ideológicos, os romances policiais, as revistas pornográficas, e também o filme de Godard, e a canção dos Stones se amontoam enquanto objetos de consumo (pop). O lugar é problemático nesse caso porque, para existirem e se propagarem, valem-se de mecanismos que constatam e criticam. O filme, nesse sentido flerta com o diabo, e o que intriga é a natureza desse jogo. Ele observa, reporta e crítica o sistema, sem sair de dentro dele; está em choque com a máquina, mas se vale de suas engrenagens para se fazer existir. Estamos numa coluna rápida, para ser consumida rapidamente. Fica o trecho como mais um teaser na disputa por atenção na enxurada de bits desse mundo aqui. 1+1. Se o flerte garante o acesso à grande indústria fonográfica e à grande máquina cinematográfica que deslizam uma pela outra, se perscrutando num momento de criação, podemos ver e ouvir algo bem diferente num outro momento, no corpo-a-corpo de um show, no auge de seu vigor físico. É 1999 e não mais 1968. Ian Mackaye e Guy Picciotto nas guitarras e vocais, Joe Lally no baixo, Brendan Canty na bateria e Jem Cohen na câmera.
Trecho de Instrument (1999), de Jem Cohen
A câmera e o espectador integrados quase como parte da banda, sujeitos ao groove e aos acidentes de percurso. Sem grandes aparatos cinematográficos, sem grandes ostensividades, o contato é franco, físico, direto. É um outro momento, o evento tem outra dimensão, o vídeo e a música fazem-se existir de outra forma. A câmera respira junto, o espectador é colocado no palco para integrar-se vivamente à cena, mais que a pensar e observar, à distância de uma grua, um tripé ou um carrinho de travelling. À margem das grandes máquinas (do cinema e da música), não é pela distinção e pelo choque que se produz o contato, mas pela integração de tudo e de todos, numa ilha. Shut the Door. A produção é independente, instaura seu espaço, cria o próprio ar para respirar e para incendiar, depende dela mesma (I burn a fire to stay cool, I burn myself, I am the fuel). Mas então o som, a palavra e as imagens se propagam num meio endógeno. Tudo numa balada conjunta, mais que numa posição frente a outra coisa, porque o diálogo é interino comunidade compartilha dessa posição. Fala-se menos e não há tantos elementos a serem confrontados num mesmo palco. A montagem aqui não vai ser um procedimento de pensamento ao aproximar imagens diversas. A aposta é na filmagem, dentro do palco e da cena, e convida a quem quiser para integrar-se. A lei aqui não parece ser maquínica ou matemática (1+1), mas orgânica, biológica: contaminação.
Revolver: mover em volta; misturar por agitação; remexer.
Acho que a gente inventa ou reinventa uma época, como se pudesse forjar os nossos próprios anos setenta ou cinquenta.. eu forjei os meus, acreditando num falso bucolismo, entre quartos esfumaçados e vinis espalhados pelo chão. não que isso fosse diferente da adolescência de qualquer mancebo, mas representou pra mim o aprendizado da escuta, da pasmaceira produtiva, da educação sentimental acima de tudo.