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Tô Ouvindo #3

A vida parece que se opera numa interação de ciclos descompassados, como um jogo de engrenagens de relógio de diferentes tamanhos que têm que dar várias voltas até se encontrarem de novo na configuração original. Enquanto as peças da engrenagem retornavam à posição original, muitos discos de minha apreciação na adolescência permaneceram na estante, até chegar momento oportuno em que tudo se encaixa e um gatilho é puxado para que esses discos sejam novamente retirados e escutados.

 

Eis que outro dia, domingo pacato, entre tantas músicas que entravam por um ouvido e saíram por outro, minha audição foi fisgada pelo som que emanava da casa vizinha. Era a bela Goodbye Stranger (que eu julgava que se chamasse Hope You Find Your Paradise), do grupo inglês Supertramp. Essa música foi o gatilho para a nova escuta de algumas das canções do grupo, após quase uma década sem lhes dar muita atenção, e em poucos minutos, recorrendo a buscas na internet e aos meus arquivos do fundo do baú, já me encontrava apreciando várias canções do grupo.

Dez anos atrás, em plena adolescência, preferia as faixas mais progressivas, como a que é carro-chefe nesse quesito: Fools Overture, de belas passagens instrumentais e arranjo grandioso. Hoje, no entanto, outro viés me atrai: a contribuição desse grupo à constituição do cancioneiro pop setentista/oitentista.

É forte a relação dos grupos de rock progressivo com o mundo da canção. O Pink Floyd (não consigo deixar de citá-lo) leva diversas e belas canções folk e blues mais puxadas para o pop, todas de grande lirismo, como Fat Old Sun, Summer ’68, Fearless, Stay, sem falar da já batida mas nem por isso menos bela Wish You Were Here.

O Supertramp se utiliza desse gênero de outra forma, com menos delírio nos timbres e arranjos. Com mais pé no chão, mas sem perder o bom gosto, faz canções às vezes simples e que dão o recado. As marcas fortes do grupo são o abuso do Wurlitzer, os solos de sax e o a voz característica de Roger Hodgson. A músicas frequentemente têm riffs marcantes e quase sempre possuem solos instrumentais e os álbuns conservam muita unidade em sonoridade.

 

Das minhas escutanças, destaco cinco bem memoráveis. As três primeiras são do disco Breakfast in America (1979), a quarta, do Crime of the Century (1974) e a última, do Even In The Quietest Moments (1977):

http://www.youtube.com/watch?v=9ZOSYrsgMJI – Goodbye Stranger. Foi o gatilho para a nova onda de Supertramp nos meus ouvidos. A começar pelo elegante e belo timbre do Wurlitzer, tudo nessa canção me evoca uma saudade muito saudável (de verdade, sem trocadilho). É um pouco mais "progressiva", a começar pela duração de mais de cinco minutos, com um belo solo de guitarra.

http://www.youtube.com/watch?v=cBYAivyxIDU&feature=related – Breakfast in America. Letra mais prosaica, dialoga bem com uma das tendências poéticas de José Luís Braga / Luiz Gabriel Lopes. Musicalmente mais simples, com ótimas inserções do clarinete fazendo contracantos no refrão.

http://www.youtube.com/watch?v=AOwDXNJbZK0&feature=relatedThe Logical Song. Um "Lindo Toque"! Também na linha mais enxuta musicalmente, mas com letra caprichada, madura. Tem que ser bom para poder pedir “please, tell me who I am” num refrão sem descambar pro brega. Isso pra não falar da prosódia e da bela dinâmica letra-música. Pra completar, tem um solo de sax competente, na linha oitentista com dignidade.

http://www.youtube.com/watch?v=fBge0nFRT-8&feature=relatedHide In Your Shell. Uma pérola (sem trocadilhos com o título da música). Letra e música muito tocantes e muito casadas. Momentos de tensão e distensão bem trabalhados. Sete minutos de duração, letra longa, tudo muito digno! Detalhe: no refrão tive a impressão de ouvir um teremim seguindo a voz numa oitava lá em cima. Talvez seja aquele mesmo tecladinho do início. Impressão minha?!

http://www.youtube.com/watch?v=7TM_3eN2N6Y – From Now On. Mais uma música de muita propriedade. Quase seis minutos e meio, várias partes e nuances: a breve mas notável introdução ao piano; o canto emocionado de Rick Davies; um interlúdio instrumental relativamente longo para uma canção, mas tão apropriado que dá gosto; o refrão ao final cantado repetidamente, tão contagiante que dá vontade de cantar junto em voz alta mesmo sendo meia noite e quarenta e três.

 

Boa audição e um abraço!

 

João Paulo Prazeres

 

P.S.: Não é porque já deram ao mundo uma música tão boa que os britânicos possam mandar, literalmente, seu lixo para o Brasil. Estou até hoje me sentindo meio humilhado com essa situação, mas espero que em breve possamos mandar nosso Lixo Polifônico para o Reino Unido.

 

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