| to ouvindo #19 - O desdém, o desejo, o querer e o sertanejo |
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| Escrito por Luiz Gabriel | |
| Dom, 13 de Dezembro de 2009 15:24 | |
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Encher a cara numa segunda-feira não pode mesmo dar em coisa boa: acordei hoje sem ressaca, mas numa angústia profunda ao me lembrar de uma promessa – a qual eu nem deveria honrar, mas que me motivou a tentar escrever essas linhas, não importando quão difícil fosse. Prometi ao Luiz que faria o próximo “tô ouvindo”. Poderia ser mais simples se a gente não tivesse delirado e enxergado uma conexão louca entre duas músicas tão díspares (juro que na hora parecia ser legal falar sobre isso). E pior: enlaçar tudo isso com a psicanálise. Bom, este é um “tô ouvindo” paritariamente mentiroso: a primeira música realmente é uma das minhas favoritas no mundo inteiro, já a segunda... Já disse o Luiz certa vez que o “desdém é o motor do desejo”. Acho que ficou meio irritado quando eu rebati dizendo que o Freud, o Lacan e mais um tanto de pós-freudianos já haviam dito a mesma coisa, exatamente a mesma coisa. E aí a gente foi pensando (sem pensar) no desejo, em qual seria uma possível definição e veio a letra de “O quereres” do Caetano. E é isso mesmo: “eu te quero e não queres como sou/ não te quero e não queres como és.”
Para a psicanálise, o desejo é, antes de mais nada, o desejo inconsciente. É no sonho, por exemplo, que se ancora a definição freudiana desse conceito: o sonho é a realização de um desejo recalcado e a fantasia é a realização alucinatória do desejo em si. Não há identificação do mesmo com “necessidade” ou “demanda”. A demanda, apesar de aparentemente incidir sobre um objeto específico, não exige de fato a presença do mesmo: a demanda é, na verdade, a demanda de amor, ao passo que o desejo nasce exatamente da distância entre necessidade e demanda. Ele se dá sobre uma fantasia, sobre um outro imaginário. “Portanto, é o desejo do desejo do outro, na medida em que busca ser reconhecido em caráter absoluto por ele, ao preço de uma luta de morte.” [1] Além do Caetano, Chitãozinho e Xororó já interpretaram esse drama. Em “Evidências” (“Quando eu digo que deixei de te amar/É por que te amo/Quando eu digo que não quero mais você,/É por que te quero) dá pra sacar uma intenção parecida de provocar o desejo, de causar algo no outro através disso que o Luiz optou por chamar de “desdém”, assim como faz o sujeito do “Quereres”, assim como faz a moça cantada pelo Graveola (“ela diz que não sabe, desdenha...”).
Bobagens à parte, a gente conseguiu se emocionar ao pensar nessas duas belezuras e, de alguma forma, ver tanta intimidade entre elas. Foi espontâneo. E honesto.
As letras, que é o que está em foco nesse momento, estão disponibilizadas nos links que se seguem.
O quereres – Composição: Caetano Veloso http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44758/ Evidências – Composição : José Augusto / Paulo César Valle http://letras.terra.com.br/chitaozinho-e-xororo/768469/
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| Última atualização ( Qui, 18 de Fevereiro de 2010 11:40 ) |




