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Tô Ouvindo #26 - o plano secreto



Última deriva de C pela noite.
 Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento.

Ao pensar nisso C começa a perceber uma música de engrenagens aparentemente soltas, algo como o mecanismo lírico evoluindo, encaixa tais palavras, desenvolvendo-se no ar uma pequena explosão que faz o som sair de dentro do som, soturno, vai encaixando palavras e  enrubescendo por um sangue ancestral a se alastrar no ouvido, suas mãos tremem anunciando pelo corpo como que um deboche da solidão que o acompanha ao redor, pelas mesas as minúsculas pessoas umidecidas lentamente pela atmosfera entrechocando os fragmentos de sua própria embriaguez. Se dá conta que o avançar da música é o que desfecha dentro de seu peito cada uma das imagens que vão escapando, por milagre, reflete, à própria reflexão que espera envolvê-lo no fenômeno. Nunca estivera tão perdido nos ouvidos, surpreendendo agora a voz familiar de Z e L flexionando a canção – toda sua origem pressionada por seus dedos, rumor dos séculos feito um horizonte caído em pausa – marcando no canto geral, como lhe dissera G certa vez, ateando fogo à melancolia, pensava agora. E mergulhado na saída do esquecimento, atirado pela música afora, já não poderia saber desde quando ouvia, se era ali, agora, numa biboca do centro ou do interior, ou se viera antes e já consigo ao atravessar os anos misteriosamente para vir embocar entre um livro ou um conhaque, mistura dos dois dentro de seu olho, atravessá-lo, traindo toda visão, a abandonar lentamente a beleza nessa eternidade de estar sempre ouvindo, o enorme silêncio de não sabê-lo e ser fulminado ao descobri-lo –             

 

, a lentidão especifica de estar ainda na rua A, sem o menor indício da fuga que o amor proporcionaria em tanto asfalto, não podia burlar a luz, o pensamento vago era o mundo a esperar lá fora, mistério e problema, ou ao contrário. Tornar o começo visível, organizar do caos a voz, abandonar o corpo ao azar e atravessar a cidade, os quintais baldios, a rua A, o sexo de todas as coisas escondidas detrás da imagem, meio conhaque a evocar do sangue uma primeira cumplicidade perdida entre as pernas e as mesas. A dor suspendia a única explicação através da noite dentro do dia, e C caminhava a passos indivisíveis já dentro do fim. Começá-lo era já o pranto inaugural de uma criança, presença excessiva e precoce pesando sobre o mundo, interminável, ínfimo. Sem saber se já estava fora da palavra que havia aguardado C pela noite, atravessando sempre, pensou numa estranha terceira pessoa, na dor que supostamente envolvia-lhe as mãos usurpando de seu cérebro toda a calma, uma rua atravessada por duas vozes, tristes, vagarosas, amantes lascivas a chamarem-se para fora do exílio, um olhar trazendo, por cima da voz, a fuga da palavra amorosa, pergunta, a palavra dando sobre a luz, eco, baldias putas rindo de escárnio e adoçando misteriosamente o percurso do tempo sobre seu corpo. “A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo”. Rindo e dizendo, assassinas*. Pensou C que a música nunca deixaria de percorrer, e através dela a poesia, se se deslocasse com o máximo de lenta atenção por todas as pedras da rua.   

 

Como persistir entre a realidade e a ficção que dela derruímos fatos sem linguagem perdendo pela boca adentro a superfície de achar-se e durar: última deriva. A mais próxima. Entre a vida que desperta por nós, falavam, e nós mesmos, intermediários, protótipos, a dor que era preciso suspender ligeiramente, e ouviam, secretos. Breve, o pensamento diante do plano diagonal da visão; insolúvel, a presença através da respiração contínua a verificar a morte, a roubar dela sua forma, ilusão durável ou pressentimento. Com atenção total C subia pelas pedras e pelos dias dentro da noite até esfriarem sob seus pés todos os nomes. Ao seu lado, Y acendia um cigarro e olhava de través pelos carros. Estavam sentados, conversavam, tentando enquadrar a vida em palavras precisas, ou a arte, e é claro, o nada nisso envolvido, a ponta de clareza da qual não fugiam, mesmo que o fizessem só pelo prazer do jogo, enquanto acalorasse o álcool ou se desfizesse no vento a sombra formada pelos dois na calçada. Haveria mesmo um plano em voltar secretamente, rompendo a luz com o próprio corpo, retomado de todo esquecimento? Ou a palavra? Escrever a centésima frase, ir além, lançar as mãos a uma pergunta, e ficar mudo de toda pausa. E recusar, como o mais difícil. Como persistir, dizia ainda a Y no começo, acordado, e Y aguardava através de seu cigarro, observando a imagem se perdendo do outro lado, se aproximando de seu ponto de fuga. Um ponto de inflexão na música brasileira, lembrava-se de G, o dizia a Y, o grande silêncio soprava ao redor do mundo a sua náusea aos homens, o garçom continuava trazendo a cerveja, rompendo o frio com as mãos, o fluxo do intestino, e Y respondia, sim, olhando a voz dentro da voz de Z, a poesia matemática do organismo, respondia sempre fumando, enquanto o a aparição do fogo fazia durar mais essa vida, e este olho que, sem nem atravessar, parou.    

 

Variantes para enaltecer a criação: um silêncio colado no outro: e admitir a voz como o que há de mais plausível."

 

 

caetano cria capivaras e ocasionalmente, tempera suas receitas com angustura e sálvia do cerrado. fracassou na tentativa de ensinar antroposofia aos cabritos, porém obteve sucesso na sua pesquisa sobre intencionalidade genética

 

Comments  

 
0 #2 Derso 2010-05-04 04:01
cara isso ae que tu escreveu é do caralho... o som de vocês é uma marambaiada de timbres sucateados num remeleixo musical desperatdor dos meus sonhos infantis...

É um sonho ouvir voces... até !
Boa sorte na carreira !
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0 #1 luizgabriel 2010-04-19 18:08
caetinho, jogador tático obscuro maldito, mestre cuca do acaso literário, teu afetuoso lirismo de capivaras me fez lembrar aquela cerveja por vir. sem nostalgia e com sede, agradecido pela rua desatravessada desse texto-música. um beijo
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