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Tô Ouvindo #27 - Um lobo atroz perdido entre duendes no edredom.
Alguns podem considerá-lo um compositor barango de baladas de novela; outras, apaixonadas,alguém que tem o dom tocar o coração das pessoas através de seu dom romântico; são muitas outras as impressões acerca deste medalhão.  Para mim, uma das mais belas vozes que já ouvi, um cancionista com dicção pra lá de convincente, mas em alguns momentos sinto no seu texto o que se pode considerar de mais nonsense na nossa MPB. Falo de Djavan, cuja música, nunca em sua totalidade, não cessa de aparecer em minhas apreciações musicais. O artista tem uma obra vasta, dotada de requintes e vai e vens, estou longe de conhecê-la integralmente. Como outros compositores consagrados, Djavan é frequentemente conhecido por uma dúzia de músicas que tocada em demasia pelos veículos de mídia de massa, principalmente através das telenovelas. Se hoje há quem defenda um gênero específico para a música de novela, estes críticos devem a sua classificação ao trabalho de Djavan. O amor, fato social total de suas composições, não cansa de ser representado em romances, em novelas, em canções. Mas não é apenas no gênero novelístico que o nosso astro assina sua patente. 


O mestre Djavan, além do bem dotado timbre, é um cantor de muitos recursos técnicos. Seus vibratos em momentos precisos, sua facilidade em caminhar suavemente entre as notas e disseminar manias que muitos outros cantores tomam como referência, não é para qualquer um. Ou é? Da representação quase mimética de Jorge Vercilo às articulações concisas de Pedro Morais, são muitos os cantores que seguem a cartilha entoativa de Djavan. Não é de se estranhar que em todos os locais onde músicos tocam para fazer o pano de fundo de almoços e jantares em shoppings e restaurantes e lounge bar´s, a bola da vez é sempre o cara. Com o sucesso das músicas de novela, nosso astro inaugura outro gênero, também peculiar a nosso cotidiano: a música de churrascaria. Quem nunca ouviu Sina, e/ou Flor de Lis, e/ou enquanto almoçava com a família em algum restaurante onde rolava música ao vivo?

Meu texto está se tornando sarcástico. Não era esse o objetivo. Afinal, o importante é dizer o que ando ouvindo de Djavan, e não o que ouvimos por acidente. Vamos à obra, ouvindo.

Seus dois primeiros discos, Djavan, de 1978, e Alumbramento, de 1980, foram os primeiros a desmanchar uma resistência que criei desde pequeno, quando me lembro da minha irmã ouvindo todos aqueles clichês djavanescos em suas gravações de fita K7. Quando ouvi estes dois discos pela primeira vez minhas impressões mudaram. Para aqueles que ainda não ouviram, chegou a hora de admirar o trabalho do homem. Destaque para a canção Numa Esquina de Hanoi, onde a alma depenada para o satanás se confunde com um lobo atroz, perdido... sim, o mestre Djavan é completamente nonsense. O mais interessante é que, de algum modo, toda essa miscelânea pancultural funciona, magicamente.  





No álbum Alumbramento destaco a canção A Rosa, composição conjunta com Chico Buarque. No linque abaixo, a dobradinha que também inclui uma versão inesquecível de samba do grande amor:





Mestre Luiz Tatit, em seu estudo sobre o cancionista brasileiro, postula:

“A voz que canta prenuncia, para além de um certo corpo vivo, um corpo imortal. Um corpo imortalizado em sua expressão timbrística. Um corpo materializado nas durações melódicas. É quando o cancionista ultrapassa a realidade opressora do dia-a-dia, proporcionando viagens intermitentes a seus ouvintes”. (TATIT, O Cancionista: composição de canções no Brasil, pg.16)  

Para apreciar Djavan é preciso se deixar levar por sua intensidade timbrística, e perceber como seu caminhar melódico costura as palavras e atravessa as durações. Sua maneira de cantar transmite afeto a aqueles que gostam de ouviro. Sua estratégia melódica, mesclado com seu timbre e sua dicção, acariciam nosso ouvidos. Como cancionista, Djavan é um malabarista, na expressão de Tatit. Mas existem sempre alguns deslizes estranhos, como se algum fantasma ou duende roubasse a cena para atrapalhar o equilíbrio da canção.

Para finalizar este Tô ouvindo, a canção Ladeirinha, uma obra prima, mesmo com os duendes no edredom. A interpretação, maldosa ou apaixonada, fica com vocês.

(Menção honrosa ao camarada que montou o vídeo: coisa fina! hahaha).






Uma homenagem a minha irmã: "tudo o que sei na vida foi a liz que me ensinou"  

Zé.
 

Comments  

 
0 #4 Victor 2010-05-09 19:00
Sempre bom ler alguém na tentativa de dar a Djavan o que é de Djavan. A imensa maioria o restringe ao título de responsável pelas canções que tocam na churrascaria domingueira. Que todos saibam que, cotidianamente, desperdiçamos injustamente não só os blues, mas os sambas e os rocks de Djavan. Ouçamo-lo!
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0 #3 Priscila 2010-04-28 00:15
DJ "AVAN"... ainda não consegui me deixar levar por sua intensidade timbrística.
Só me deixo abater pela prolixi-johnny de sua poesia.
;)
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0 #2 Lu Macedo 2010-04-27 15:54
[quote name="Lu Macedo"]Bom demais o texto!Gostando ou não do Djavan, vale a pena ouvir "Triste baía da Guanabara", música do Novelli e do Cacaso que ele gravou. A música começa com uns acordes absurdamente tensos e permanece lindamente sinuosa.
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0 #1 Lu Macedo 2010-04-27 15:52
Bom demais o texto!Gostando ou não do Djavan, vale a pena ouvir "Triste baía da Guanabara", música do Novelli e do Cacaso que ele gravou. A música começa com uns acordes absurdamente tensos e permanece lindamente sinuosa: http://www.youtube.com/watch?v=8VvoliZxk-8&feature=player_embedded
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