Tô Ouvindo #28 - TOTO BISSAINTHE – POR QUE NÃO CONHECI ANTES?
Certa vez, fiz um trabalho com uma cantora e professora haitiana, que dizia que nos cantos tradicionais existia uma “vibração” inerente a palavra e ao som. Sem falar que, em cada intenção, estavam guardados os elementos necessários para a transformação da presença e a “justificativa” para o ato de se fazer música.
As palavras dessa professora me vieram em um momento, em que me havia sido apresentado o som, de uma das artistas mais completas ou complexas que já ouvi: Toto Bissainthe.
Tô Ouvindo #27 - Um lobo atroz perdido entre duendes no edredom.
Alguns podem considerá-lo um compositor barango de baladas de novela; outras, apaixonadas,alguém que tem o dom tocar o coração das pessoas através de seu dom romântico; são muitas outras as impressões acerca deste medalhão. Para mim, uma das mais belas vozes que já ouvi, um cancionista com dicção pra lá de convincente, mas em alguns momentos sinto no seu texto o que se pode considerar de mais nonsense na nossa MPB. Falo de Djavan, cuja música, nunca em sua totalidade, não cessa de aparecer em minhas apreciações musicais. O artista tem uma obra vasta, dotada de requintes e vai e vens, estou longe de conhecê-la integralmente. Como outros compositores consagrados, Djavan é frequentemente conhecido por uma dúzia de músicas que tocada em demasia pelos veículos de mídia de massa, principalmente através das telenovelas. Se hoje há quem defenda um gênero específico para a música de novela, estes críticos devem a sua classificação ao trabalho de Djavan. O amor, fato social total de suas composições, não cansa de ser representado em romances, em novelas, em canções. Mas não é apenas no gênero novelístico que o nosso astro assina sua patente.
Última deriva de C pela noite. Está sentado em algum bar do centro folheando um copo de conhaque – a cena pode se passar também em qualquer biboca do interior; ouvem-se vozes espaçadas, donde se desprendem os odores do álcool formando uma atmosfera baça; risos seminus e galhofas obscenas rodeiam. Pode estar acompanhado por uma das sombras, percebe com lentidão a proximidade de um corpo, lentidão era a palavra que lhe aguardava, ele sabia, como sabia que o tempo se fraturava através das imagens quando tais meneios podiam já estar debruçados em outra mesa, onde certamente caía uma gorjeta mais farta, ou ainda dentro dessa imagem que tinha agora diante de si, com a qual testavam aéreas suas mãos desalinhadas de todo movimento.
Vou escrever sobre um disco que conheci há pouco tempo e não paro de escutar, ouço pelo menos uma vez por dia, e quando isso não me acontece sinto saudades. ‘’Sem Nostalgia’’, de Lucas Santtana é uma viagem para um lugar envolvente com muito violão, ritmo, natureza e coisas eletrônicas misturadas em um sentimentalismo enorme.
Dando continuidade à série de convidados. Recebemos, com muita honra, nosso amigo Alexandre Fonseca - grande apreciador da música para teclado e, sobretudo, dos sintetizadores - que nos apresentará um álbum que abriu os caminhos para uma exploração menos restrita da música eletroacústica.
As coisas que realmente são não precisam se ocupar em mostrar constantemente que são, tão simplesmente estão lá. Mas em alguns casos sua existência, simples como é, traz a mais avassaladora das transformações no homem, pois ocupa um espaço anteriormente inexistente na mente preconceituosa do humano. Isso normalmente ocorre devido a um criador que, ocupando o mais improvável dos lugares e usando a técnica mais incomum, consegue alcançar a dimensão da Arte (no sentido mais conservador mesmo) e transformá-la mais ou menos radicalmente. Isso se vê, por exemplo, em Picasso, imigrante espanhol que enxergou máscaras africanas nos rostos das meretrizes de Montmartre, e também na obra sobre a qual tratarei.
para Irene, comunhão de apreço pela beleza dos cantos dos pássaros na música.
...os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach. – Manoel de Barros, Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo
Eis um Tô Ouvindo cujo tema foi trocado de última hora em função de uma paixão recente (ma non troppo) e ainda incompleta, mas que gorjeou mais alto. Desde pequeno, vi a orquestra como uma espécie de fauna: um conjunto de seres criados pelo homem, análogo à criação divina da natureza. Só agora, com esse interesse ainda vago pela ornitologia, tenho conseguido desenvolver melhor essa idéia.
Hesitei um bocado na escolha da indicação para a volta do Tô Ouvindo; discos muito diversos entre si me tomaram a orelha nesses últimos tempos, e a paralisia dessa dúvida também é motivo da demora da volta. É em elogio à diversidade, no entanto, que resolvo falar aqui - pouco - sobre o incômodo e a atração simultâneos que me causaram desde a primeira escuta uma banda chamada Sonic Youth.
TÔ OUVINDO #20 - homeopatia sonora da existência, ou musicoterapia
N. do E.: ho, ho, ho! em grande estilo, a coluna entra em recesso natalino-reveiônico. voltaremos breve, em momento ainda indefinido. e pra fechar dois mil e love com chave de ouro, com vocês, nossa agregada querida Ju Perdigão, a.k.a Ruth Lucélia, ou Marta Késsia, no tô ouvindo que mais trampo deu a este pobre editor, mas que valeu a tarde dominical da segunda feira. boa degusteixon, e até breve, ho, ho, ho!
to ouvindo #19 - O desdém, o desejo, o querer e o sertanejo
Encher a cara numa segunda-feira não pode mesmo dar em coisa boa: acordei hoje sem ressaca, mas numa angústia profunda ao me lembrar de uma promessa – a qual eu nem deveria honrar, mas que me motivou a tentar escrever essas linhas, não importando quão difícil fosse. Prometi ao Luiz que faria o próximo “tô ouvindo”. Poderia ser mais simples se a gente não tivesse delirado e enxergado uma conexão louca entre duas músicas tão díspares (juro que na hora parecia ser legal falar sobre isso). E pior: enlaçar tudo isso com a psicanálise. Bom, este é um “tô ouvindo” paritariamente mentiroso: a primeira música realmente é uma das minhas favoritas no mundo inteiro, já a segunda...
Me lembro bem, lá em Milho Verde , saí, fui tomar uma num bar, tinha um cara cantando, um voz muito peculiar, miltoniana, fiquei com aquilo na cabeça, fui dormir cedo, como quase sempre...
N. do E.: É com alegria que chegamos à décima sétima edição da coluna, já tendo percorrido o variado cardápio sonoro de todo o primeiro núcleo de trabalho desta banda-coletivo. O movimento que agora se ensaia, tornado proposição daqui em diante, é o de ampliar ainda mais este espaço de referências, através de indicações de pessoas externas ao grupo. Nesse intuito, oficializamos aqui o início de um "ciclo de convidados", em que amigos e parceiros do nosso dia a dia escreverão sobre suas escutâncias recentes. Esperamos, assim, absorver e difundir novos universos de som e sentido, ampliando o mosaico polifônico que se materializa nesse site. Na semana passada tivemos o texto do Guto, do Dead Lover´s; hoje contamos com a ilustre participeixon do amigo e comparsa João Antunes. Enjoy it!
TÔ OUVINDO #16 - O tempo passa, o mundo gira, o mundo é uma bola.
Tudo bem que o “brega” já era nosso velho conhecido.... Há algum tempo atrás falávamos de uma música pós-Roberto Carlos, que com arranjos simples de baixo, bateria e guitarras, teclados e violinos arrebatou toda a periferia do país nos anos 70. Uma música que se por um lado fazia uma clara referência ao rock internacional, por outro guardava uma série de temas ordinários, sotaques, adaptações, e principalmente uma incapacidade absolutamente criativa de se copiar.
TÔ OUVINDO #15 - Tem alguma coisa querendo sair de dentro de mim...
Hoje de novo sigo a senda Para a vida, o varejo, a venda, E guio as hostes da poesia Contra a maré da mercancia. (1914 - Velimir Khlébnikov)
Ouvir é ser tocado à distancia. Ouvir é obedecer. Escutar em latim é obaudire. A audição, audientia é uma obaudientia, uma obediência. Tô ouvindo. Tô obedecendo.
Na infância ouvi muito pagode e música sertaneja. Na minha casa poucos discos. Meus pais foram daqueles que pararam de ouvir música depois da juventude e era raro alguém pôr algo pra tocar em casa. A radiola que mais balançou meu berço musical ficava no sítio do meu avô Didiu, onde na pilha torta de vinis sobre o sofá se equilibravam Roberto Carlos, Chitãozinho&Chororó, Raça Negra, Leandro e Leonardo, Só Pra Contrariar, Zezé e Luciano... Nada de mpb, nem um caetano sequer.
ex-os mulheres negras, com abujamra sobrinho,,, andré, (que depois virou karnak..., que não amava toda a família) nascido em 59, bebeu na fonte do rock`n`roll, depois na da tropicália.
'Nasci de um doidão marinheiro cuja paixão é o mar, cuja morada é um barco sem rumos e toda a vista é cheia d'água.'
Não sei se desse sangue ou de outro modo, mas o nomadismo está entranhado aqui na carne. Seja nas viagens de mochila ou de cabeça, seja num livro de realismo fantástico ou a dança no meio da rua costurando a madrugada, nessas coisas todas que se misturam e formam na cabeça uma sequência linda de gente em celebração, de saia que gira e gente rodando, de caneco de vinho no alto do brinde, de tenda cigana, clarão e noite acesa, onde a ida vem com sol e estrada e a chegada, também.
Pois, que tem músicas que poderiam ser mais ouvidas e reverberadas. E tem filmes que poderiam ser mais vistos e reverberados. E talvez tenha um jeito de juntar isso, 1+1. Daí a gente podia ver - e ouvir - um trecho do momento de criação de Sympathy for the Devil, na direção do Godard.
Trecho de One Plus One / Sympathy for the Devil (1968), de Jean-Luc Godard
Esse é um lado do filme. É um fragmento. Convenhamos que não estamos numa sala de cinema propriamente, mas numa coluna rápida, para ser consumida rapidamente, apesar do próprio filme e sua abordagem crítica do capitalismo e da sociedade de consumo. Porque todos os discursos ideológicos, os romances policiais, as revistas pornográficas, e também o filme de Godard, e a canção dos Stones se amontoam enquanto objetos de consumo (pop). O lugar é problemático nesse caso porque, para existirem e se propagarem, valem-se de mecanismos que constatam e criticam. O filme, nesse sentido flerta com o diabo, e o que intriga é a natureza desse jogo. Ele observa, reporta e crítica o sistema, sem sair de dentro dele; está em choque com a máquina, mas se vale de suas engrenagens para se fazer existir. Estamos numa coluna rápida, para ser consumida rapidamente. Fica o trecho como mais um teaser na disputa por atenção na enxurada de bits desse mundo aqui. 1+1. Se o flerte garante o acesso à grande indústria fonográfica e à grande máquina cinematográfica que deslizam uma pela outra, se perscrutando num momento de criação, podemos ver e ouvir algo bem diferente num outro momento, no corpo-a-corpo de um show, no auge de seu vigor físico. É 1999 e não mais 1968. Ian Mackaye e Guy Picciotto nas guitarras e vocais, Joe Lally no baixo, Brendan Canty na bateria e Jem Cohen na câmera.
Trecho de Instrument (1999), de Jem Cohen
A câmera e o espectador integrados quase como parte da banda, sujeitos ao groove e aos acidentes de percurso. Sem grandes aparatos cinematográficos, sem grandes ostensividades, o contato é franco, físico, direto. É um outro momento, o evento tem outra dimensão, o vídeo e a música fazem-se existir de outra forma. A câmera respira junto, o espectador é colocado no palco para integrar-se vivamente à cena, mais que a pensar e observar, à distância de uma grua, um tripé ou um carrinho de travelling. À margem das grandes máquinas (do cinema e da música), não é pela distinção e pelo choque que se produz o contato, mas pela integração de tudo e de todos, numa ilha. Shut the Door. A produção é independente, instaura seu espaço, cria o próprio ar para respirar e para incendiar, depende dela mesma (I burn a fire to stay cool, I burn myself, I am the fuel). Mas então o som, a palavra e as imagens se propagam num meio endógeno. Tudo numa balada conjunta, mais que numa posição frente a outra coisa, porque o diálogo é interino comunidade compartilha dessa posição. Fala-se menos e não há tantos elementos a serem confrontados num mesmo palco. A montagem aqui não vai ser um procedimento de pensamento ao aproximar imagens diversas. A aposta é na filmagem, dentro do palco e da cena, e convida a quem quiser para integrar-se. A lei aqui não parece ser maquínica ou matemática (1+1), mas orgânica, biológica: contaminação.
Revolver: mover em volta; misturar por agitação; remexer.
Acho que a gente inventa ou reinventa uma época, como se pudesse forjar os nossos próprios anos setenta ou cinquenta.. eu forjei os meus, acreditando num falso bucolismo, entre quartos esfumaçados e vinis espalhados pelo chão. não que isso fosse diferente da adolescência de qualquer mancebo, mas representou pra mim o aprendizado da escuta, da pasmaceira produtiva, da educação sentimental acima de tudo.
Um dia eu cheguei em casa e tinha um pacote pro Luiz Gabriel de um cara chamado Rômulo Fróes. Era um disco duplo com uma capa muito doida, eu então fui escutar e até hoje eu tô ouvindo demais esse disco. Chama “No chão sem o chão” e é dividido em duas sessões: “Cala a boca já morreu” e “Saiba ficar quieto”. Eu comecei a ouvir a primeira sessão, na verdade não gostei de cara, então passei pra segunda sessão e viciei completamente. Aí, depois de um tempo ouvindo todo dia a segunda sessão eu tomei coragem pra voltar e ouvir de novo, aí eu gostei demais.
Bem... ãnh. Comecei a ouvir música de fato aos 16, pois até então não tive um berço musical na minha família. Como todo adolescente que começa a perseguir o caminho da verdade através do roquenrou. Meu contato direto, não só como simples ouvinte, mas como atuante na área, foi aos 17, quando passei a frequentar o que se pode dizer a primeira e maior influência artística da minha vida, o Centro Cultural Tambolelê. A princípio vou deixar algumas de minhas influenzas passadas e atuantes.